domingo, 9 de setembro de 2012

Primeira publicação de "Os Loucos"

     - Treze degraus. Há muito tempo que os deixei de contar. Conheço bem este espaço, como se o conseguisse ver. Não tenho a perceção visual do que me rodeia mas raramente tropeço. Habituei-me a calcular as distâncias sem que isso domine propriamente cada passo,cada ação.
    - A música deve tê-lo certamente ajudado,Professor. Não abdicaria da visão por nada mas confesso que invejo a liberdade musical que isso lhe dá.
    - Liberdade musical? Explique-se, meu Major.
    - O senhor Professor sabe como o admiro. Já nos tempos de conservatório se distinguia. Lembro-me da minha professora de piano da altura criticar a minha péssima memória digital. Ficava refém das partituras e nunca acertava intervalos mais amplos. Simplesmente não tinha tempo. O olhar perdia-se entre o branco e o preto das teclas e as mãos não conseguiam ser autónomas quanto às distâncias. As suas não. As suas eram livres. Captavam as intenções de dinâmica mas nunca parecia preocupado em acertar, mostrava-se muito seguro e a verdade é que efetivamente o senhor Professor não falhava a tecla. Fosse qual fosse o intervalo, o salto. É nesse sentido que me refiro à sua liberdade para tocar. Sentir a arte. Exprimi-la.
   - Sentir a arte, exprimi-la...meu caro e fiel amigo bem sabes o quanto te estimo.Peço-te que olhes à tua volta. O que vês?
   - Vejo o seu salão, todo ele desmobilado. Não há um quadro, uma peça... O espaço é amplo,as paredes,bem como o teto, são verdes e o chão é de madeira. Todo ele impecavelmente envernizado. À minha frente, bem... vejo-o a si no centro da sala sentado junto de um cravo também ele verde. Na verdade, vive num espaço muito vazio. Eu não seria capaz.

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