quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

   O ser humano, mesmo num plano individual, não pode ser dissociado da sua dimensão social, coletiva. Assim, atendendo ao poder do dinheiro, torna-se pertinente uma reflexão no sentido de escrutinar os seus efeitos perniciosos. Estes, integrados nos sistemas políticos corroem, num ciclo vicioso, uma vontade que "a tudo nos obriga".
   Camões, particularmente no canto oitavo, refere o favorecimento à ascenção de, embora tiranos, inúmeros reis. Contudo, apesar do distanciamento temporal, o dinheiro continua, à margem de padrões éticos, a funcionar como principal engrenagem dos sistemas de governação. Não esqueçamos, portanto, os sacrifícios moralmente insustentáveis que, em prol do poder, o dinheiro sujeita a classe política.
   Um exemplo claro remete-nos para as presidenciais americanas. Recordo que, já há quatro anos, o senador do Illinois acusou o seu adversário republicano de ter arrecadado um milhão de dólares junto das petrolíferas. Desta forma, devem esperar-se contrapartidas que, além de factos moralmente insustentáveis, tomam reféns as classes políticas. De facto, como ironizou Obama, as perfurações no mar não contribuem em nada para "aliviar o porta-moedas nas bombas de gasolina mas ajudam a financiar uma campanha."
   Por outro lado, existe todo um eleitorado, formado por pessoas comuns, que alimenta este sistema. Pôr de parte uma motivação financeira, mesmo de quem vota nesta política, seria, pois, um erro primário. Nem o próprio poeta, n'Os Lusíadas, se afasta dos perigos do dinheiro. As pessoas votam com a esperança de melhores condições socio-económicas. O problema é que podemos encontrar no triunfo de inúmeros governos de Direita, um bom exemplo de que essa esperança, esse voto, é o resultado de um culto de aparências, de uma campanha que, mais subsidiada, se serve desse dinheiro para iludir, ludibriar.
   Pode, a partir do exposto, concluir-se um contínuo mecanismo de feedback positivo. Este, no decorrer da História, tem vindo a permitir sucessivos recomeços de um ciclo que, dada a nossa condição, se rege pela vontade de um poder que, citando novamente Camões, "a tudo nos obriga".

João Rio

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